*texto feito pra aula do Lisandro em junho de 2009 (ainda sem correção).
Crimes e Pecados é o décimo nono filme de Woody Allen, que além de dirigí-lo, ainda assina o roteiro e atua na trama. Lançado em 1989, é mais um trabalho de Allen discutir religião, adultério, moral, assassinato e ética. Apesar de fugir um pouco do estilo cômico que consagrou o diretor, o filme não perde seu caráter irônico. A trilha sonora instrumental é um aspecto que merece destaque; marca registrada do diretor, mais uma vez ela se fez impecável na trama. Recheado de flashbacks e cenas gravadas em plano médio e americano, Crimes e Pecados conduz duas narrativas distintas, que só se entrelaçam nas últimas cenas do filme.
As histórias de Judah Rosenthal e Cliff Stern são contadas simultaneamente, embora o maior conflito seja protagonizado pelo primeiro. Judah é um oftalmologista, casado há 25 anos com Mirian, bem-sucedido e que mantém um relacionamento extraconjugal com Dolores. Em um dos vários flashbacks do filme, descobre-se que Dolores era aeromoça e conheceu Judah em uma viagem. O conflito de maior destaque começa quando Dolores envia uma carta para Mirian, contando tudo sobre o affair do marido. Judah encontra a carta antes da esposa e tira satisfações com a amante.
Quando Dolores ameaça contar tudo, não só sobre seu romance com o oftalmologista, como também segredos a respeito de suas jogadas financeiras antiéticas cometidas no passado, Judah se vê encurralado. Seu irmão Jack, que mantém contatos com criminosos, sugere que Judah encomende a morte de Dolores. Woody Allen mostra a possível revelação do adultério como uma interferência nas aparências mantidas por Judah em relação à sociedade, para a qual é uma espécie de exemplo. O oftalmologista teve uma criação baseada na religião judaica, e conflita com isso várias vezes durante a trama.
No início do filme, é mostrado um coquetel, uma festa na qual Judah é homenageado pelo seu trabalho dentro da oftalmologia. Nestas cenas há uma sequência de panorâmicas, mas a maioria delas é feita com o plano mais fechado, ou seja, a câmera passeia pelo salão, mas não mostra muito além dos personagens. Allen abusa dos close ups durante todo o longa e já começa a usá-los nas primeiras cenas, que mostram um flashback curto de Judah encontrando a carta de Dolores para sua esposa.
Outra característica que merece destaque é que há poucas cenas no filme protagonizadas por muitos personagens. A grande maioria das sequências mostra dois personagens em diálogo. As cenas de Judah e Dolores e de Cliff com a sobrinha, são exemplos disso. No entanto, são também momentos que permitem o uso do plano americano, além do plano médio; ocasionalmente, o plano geral também aparece.
Cliff Stern é um cineasta fracassado que tenta finalizar um documentário sobre o professor de filosofia Louis Levy. Vivido pelo próprio Woody Allen, ele é casado com Wendy e acaba aceitando fazer um vídeo biográfico protagonizado pelo cunhado Lester (irmão de Wendy), um produtor de séries televisivas um tanto quanto arrogante. Cliff não gosta de Lester, mas topa fazer o filme para conseguir fazer seu documentário. Neste momento, entra em voga um conflito ético na vida do cineasta. Para ele, fazer o filme sobre a vida do cunhado seria sucumbir ao modo de produção cinematográfica que sempre condenara.
As duas histórias, de Judah e Cliff se desenrolam simultaneamente, mas a quebra na narrativa de uma para outra é repentina e não segue nenhum padrão. Quando menos se espera dá-se uma pausa na história de um e passa-se a contar a história do outro.
O elo que liga estas duas narrativas principais é o rabino Ben. Ben é o outro cunhado de Cliff, irmão de Wendy e Lester. Ele tem um problema na visão e é tratado por Judah. Em algumas de suas consultas, o oftalmologista acaba pedindo a Ben conselhos relacionados a Dolores. Curiosamente, é após uma conversa com Ben que Judah decide seguir o plano de seu irmão Jack e encomendar o assassinato da amante.
Durante a trama, cenas de outros filmes são mostradas. Um deles é Cantando na Chuva. Na cena, Cliff e Halley, colega de trabalho que ele conheceu durante as filmagens da biografia de Lester; estão vendo o material produzido com o professor Levy. Quando Halley encontra a película, Cliff revela que este é o único filme que possui e que o assiste a cada dois meses para se animar. Neste momento fica evidente o interesse de Cliff pela colega. Cenas como esta e outras como as que Judah tem crises de consciência, por exemplo, mostram a importância da sutileza nas interpretações dos atores. As feições de Martin Landau, ator que vive Judah, por si só são capazes de transparecer a angústia do personagem.
A cena do jantar entre Lester, Halley, Wendy e Cliff confirma ainda mais os sentimentos de Cliff por Halley. Aqui, Allen usa travellings, e close ups de acordo com a fala dos personagens e deixa óbvio também o interesse de Lester por Halley. Neste ponto surge um impasse: seria o interesse de Lester e Cliff por Halley uma forma inconsciente de um personagem bater de frente com o outro, já que eles não se gostam? Talvez, mas a sinceridade das intenções de Cliff é mostrada de forma muito convincente.
Na sequência tem-se uma cena de Cliff conversando com a sobrinha sobre sua paixão por Halley, é neste momento que se tem certeza da pureza dos sentimentos do cineasta. Pois na cena, envolve-se a inocência da criança na discussão sobre um sentimento tão nobre quanto a paixão ou o amor.
Voltando a falar de Judah, seus conflitos de consciência continuam durante todo o resto da trama. Em uma percepção genial de Allen em relação ao roteiro, Judah conversa com o irmão sobre o crime e acaba por visitar a casa onde foi criado. Ao chegar ao local ele se depara com uma família judaica no meio de uma discussão à mesa de jantar. Isto confirma sua bronca com a religião, provavelmente devido ao autoritarismo de seu pai.
De volta à narrativa de Cliff, quando o professor Levy, personagem de seu documentário, comete suicídio, o personagem se encontra em seu momento mais confuso da trama. Como finalizar um filme no qual Levy filosofa a respeito da beleza da vida, sendo que este acaba de suicidar-se, ele se pergunta. Halley procura Cliff para consolá-lo e eles acabam se beijando. A iniciativa tomada por Cliff mostra que seu interesse não é correspondido da maneira que desejava.
Enquanto isso, um detetive procura Judah em seu consultório e faz perguntas a respeito de Dolores. Judah consegue se sair bem das perguntas do detetive, mas sua crise de consciência o faz querer confessar o crime. No entanto, Jack o impede e ele acaba desistindo. A este ponto, a família do oftalmologista começa a perceber e estranhar suas mudanças de comportamento.
O filme traz uma surpresa quando o vídeo de Cliff sobre a vida de Lester fica pronto. O personagem acaba comparando o cunhado a Mussolini e mostra uma imagem denegrida de Lester (para Cliff, a imagem real do produtor televisivo). Isto indica o arrependimento de Cliff em ter aceitado o trabalho e passado por cima dos seus princípios enquanto cineasta. Lester demite o cunhado e novamente Halley está por perto. Tomado pela situação, Cliff acaba pedindo Halley em casamento. A reviravolta da sequência ocorre quando Halley revela que vai se mudar para Londres por quatro meses, para trabalhar, deixando Cliff desnorteado.
Ao se passarem os quatro meses da temporada de Halley em Londres, os personagens se reúnem em uma festa que marca as cenas finais da trama e une as duas histórias. Um casamento judaico, da filha de Ben, o rabino, que agora já está completamente cego, revela o noivado de Halley e Lester, que se encontraram em Londres e o anúncio do divórcio de Cliff e Wendy. Na festa, Halley procura Cliff para defender sua relação com Lester e devolver uma carta de amor a ele. Segundo o cineasta, aquela era a única carta de amor que havia escrito.
Judah e Cliff conversam no casamento, enquanto Lester e Wendy discutem os ideais do último. Judah diz a Cliff que tem o roteiro perfeito para a história de um crime e começa a contar sua história. Cliff discorda do final da história e sugere outra conclusão, na qual o criminoso se entregaria. Judah se sente culpado por ter cometido o crime e por não ter tido que pagar por ele. Agora ele tem que viver com os seus pecados. Enquanto Ben dança com a filha, é mostrada uma montagem com cenas do filme, embalada pela locução de uma fala do professor Levy.
Em um filme cheio de nuances técnicas e narrativas, Woody Allen conseguiu mostrar sua versatilidade como diretor e roteirista. Nos conflitos mostrados nota-se que o sentimento que movimenta as histórias é a culpa. O entrelaçamento das narrativas é feito de forma interessante, sendo concretizado apenas na última sequencia. Usando os clichês a seu favor, Allen criou um ambiente inóspito, pronto para levar os personagens ao conflito a cada ação. As ironias podem ser identificadas na cadeia de eventos resultante do crime cometido por Judah, que terminou livre do crime (mas, não do pecado) e continou prosperando, na quase história de amor malsucedida de Cliff e Halley e na frase proferida por Judah nas cenas finais “se quer um final feliz, vá ver um filme de Hollywood”.

crimes e pecados
Título Original: Crimes and Misdemeanors
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 104 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1989
Estúdio: Orion Pictures Corporation
Distribuição: Orion Pictures Corporation
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Produção: Robert Greenhut
Direção de Fotografia: Sven Nykvist
Desenho de Produção: Santo Loquasto
Direção de Arte: Speed Hopkins
Figurino: Jeffrey Kurland
Edição: Susan E. Morse